A venda que não aconteceu

Crônica 001 de 365 — publicação prevista para 1º de novembro de 2026

Seu Álvaro tinha um pequeno mercado em Belo Horizonte, desses em que o dono conhece o nome do freguês, o freguês conhece a família do dono e os dois sabem perfeitamente quem está devendo, embora prefiram não tocar no assunto.

O estabelecimento se chamava Mercado Ideal.

Era uma escolha curiosa de nome, porque nada ali era particularmente ideal.

A geladeira fazia um barulho de motocicleta subindo ladeira. A balança precisava de uma pancadinha ocasional para funcionar. E o computador, comprado pelo filho havia três anos, era usado basicamente para imprimir cupons fiscais e jogar paciência.

Seu Álvaro confiava no computador.

Ou, pelo menos, confiava no que ele dizia quando concordava com Seu Álvaro.

Numa terça-feira, uma senhora entrou no mercado.

— O senhor tem manga?

— Não, senhora.

— E amanhã?

— Também não.

— Como é que o senhor sabe?

— Porque não trabalho com manga.

A senhora agradeceu e foi embora.

No dia seguinte, outra cliente perguntou:

— Tem manga?

— Não.

— Que pena.

Seu Álvaro não achou pena nenhuma. Continuou organizando as caixas de sabão em pó.

Na sexta-feira, apareceu um rapaz.

— Moço, tem manga madura?

— Vocês combinaram alguma coisa?

— Como assim?

— Nada. Não tenho.

O rapaz saiu.

Seu Álvaro começou a desconfiar de uma conspiração envolvendo frutas tropicais.

No domingo, o neto apareceu para o almoço. Estudava alguma coisa relacionada a computadores, números e um nome em inglês que o avô nunca conseguia pronunciar.

— Vô, como estão as vendas?

— Boas.

— Boas quanto?

— Boas, uai.

— Mas estão aumentando ou diminuindo?

— Depende do dia.

— E comparando com o mês passado?

— Você veio almoçar ou fazer auditoria?

O neto resolveu esperar a sobremesa.

Depois, pediu para olhar o sistema do mercado.

Descobriu que o avô tinha relatórios de vendas, controle de estoque, histórico de preços e gráficos que nunca haviam sido abertos.

— Vô, por que o senhor não vende manga?

— Porque manga não vende aqui.

— Como sabe?

— Porque nunca vendi uma.

O rapaz ficou em silêncio.

— Mas o senhor já colocou manga para vender?

— Não.

— Então como sabe que não vende?

Seu Álvaro pensou.

Pensou mais um pouco.

— Você está estudando demais.

O neto puxou uma cadeira.

— Vamos fazer uma experiência?

— Quanto vai custar?

— Um caderno.

— Já começou caro.

Compraram um caderno de capa azul.

Na primeira página, escreveram:

PRODUTOS QUE AS PESSOAS PROCURAM E NÃO ENCONTRAM.

Seu Álvaro achou o título excessivo.

— Escreve só "Faltou", menino.

E assim nasceu o departamento de inteligência do Mercado Ideal.

Durante duas semanas, toda vez que alguém perguntava por um produto inexistente, Seu Álvaro anotava.

Manga.

Água de coco.

Leite sem lactose.

Manga outra vez.

Manga madura.

Manga verde.

A manga, descobriu-se, tinha uma clientela que Seu Álvaro desconhecia completamente.

— Essa fruta está tentando me dizer alguma coisa — comentou.

O neto sugeriu comprar uma pequena quantidade e experimentar.

Seu Álvaro comprou.

Vendeu quase tudo.

Na semana seguinte, ajustou o pedido, observando o que saía e o que estragava.

Não ficou rico.

Não abriu uma filial.

Não recebeu convite para falar sobre inovação em algum congresso.

Mas começou a entender uma coisa que o computador jamais lhe havia contado.

O sistema registrava todas as vendas realizadas.

Nenhuma das vendas perdidas.

Era um sistema impecável para explicar o que havia acontecido dentro do mercado e praticamente inútil para compreender o que acontecia na cabeça de quem entrava nele.

— Vô, o senhor está fazendo análise de dados.

— Estou fazendo o quê?

— Análise de dados.

— Estou escutando os fregueses.

— É parecido.

— Então por que inventaram outro nome?

O neto tentou explicar a diferença entre sinal, dado, informação e evidência.

Seu Álvaro ouviu pacientemente.

Depois perguntou:

— E precisava de faculdade para descobrir que eu tinha que anotar o que o povo pedia?

— Não, vô.

— Ainda bem.

Mas a história não terminou com as mangas.

Certo dia, Seu Álvaro descobriu que algumas pessoas entravam, perguntavam o preço de um produto e saíam sem comprar.

Antes, ele interpretava aquilo como falta de dinheiro ou simples curiosidade.

Agora, desconfiava que talvez fosse alguma coisa relacionada ao preço.

O neto explicou que desconfiar era uma hipótese, não uma conclusão.

— Então agora, além de anotar, tenho que desconfiar direito?

— Exatamente.

Seu Álvaro olhou para o caderno azul.

Já havia anotações suficientes para várias perguntas.

Mas nenhuma garantia de resposta.

Achou aquilo muito parecido com a vida.

Na manhã seguinte, uma senhora entrou no mercado.

— Tem manga?

— Tenho.

— Está madura?

— Tenho madura e verde.

— Quanto custa?

Seu Álvaro informou o preço.

A senhora fez uma expressão de desaprovação e saiu.

Ele abriu o caderno azul.

Escreveu:

Manga. Achou cara.

Ficou olhando para a anotação.

Depois riscou.

Escreveu novamente:

Manga. Perguntou o preço. Não comprou. Motivo desconhecido.

Seu Álvaro fechou o caderno, satisfeito.

Pela primeira vez na vida, tinha registrado uma informação sem inventar a explicação.

E, embora não soubesse, estava começando a pensar como um cientista.