Seu Osvaldo não admitia atrasos. Especialmente os próprios.
Seu Osvaldo chegava ao escritório às oito horas e sete minutos. Isso era um fato. Outro fato: ele jamais concordou com a expressão “sete minutos de atraso”.
O relógio da recepção andava adiantado. Sempre andara. E se alguém tinha coragem de contestar a palavra de um relógio de parede, o problema era da empresa, não de Seu Osvaldo.
— Eu cheguei às oito — avisava, depositando a pasta na mesa com a firmeza de quem acabara de vencer uma disputa judicial.
— O ponto marcou oito e sete.
— O ponto está com problemas.
Nos últimos três anos, todo objeto que discordava de Seu Osvaldo tinha apresentado problemas. O termômetro do ar-condicionado. A balança da farmácia. O aplicativo que mostrava chuva quando ele saía sem guarda-chuva. Uma vez, o despertador foi promovido a inimigo pessoal.
O gerente, homem de maneiras gentis e poucas convicções próprias, resolveu encerrar a discussão com modernidade.
— Vamos instalar um sistema novo.
O sistema chegou numa segunda-feira, acompanhado por dois técnicos, três cabos e um manual que ninguém teve a imprudência de ler. Na terça, o relatório dizia que Seu Osvaldo havia chegado às oito e sete.
— O sistema novo está com problemas — disse ele.
Na quarta, o gerente pediu uma reunião.
— Precisamos entender o que está acontecendo.
— Finalmente — respondeu Seu Osvaldo. — Alguém vai investigar esse relógio.
Vieram planilhas, gráficos, uma apresentação com vinte e seis páginas e uma linha de tendência. O analista explicou que, em quarenta dias úteis, Seu Osvaldo tinha registrado entrada depois das oito em trinta e oito.
Seu Osvaldo ficou impressionado.
— Quarenta dias? Tudo isso? Parece que foi ontem que começou o mês.
O analista continuou. Havia uma concentração curiosa de horários. Oito e cinco, oito e seis, oito e sete. Pouca variação. Seu Osvaldo olhou a figura e reconheceu imediatamente o culpado.
— Está vendo? É um padrão. Relógio com defeito costuma fazer essas coisas.
A estagiária, até então ocupada em desenhar quadradinhos no caderno, pediu licença para fazer uma pergunta.
— E se a gente comparar com o horário da câmera da portaria?
O gerente hesitou, porque aquilo não estava na apresentação. O analista sorriu. Seu Osvaldo quis saber se a câmera era homologada.
Na sexta, a equipe assistiu a quarenta pequenas aparições de Seu Osvaldo entrando pela porta. Em trinta e oito delas, ele surgia depois das oito. No vídeo de uma segunda-feira especialmente memorável, parava no hall para conversar com o segurança sobre a demissão de um treinador de futebol.
— Aquela conversa era importante — justificou.
— Não estamos discutindo isso — respondeu a estagiária.
Seguiu-se um silêncio. Um silêncio robusto, de sala sem ar-condicionado.
Na segunda seguinte, Seu Osvaldo entrou às sete e cinquenta e nove. Cumprimentou o segurança, registrou o ponto e foi para a mesa. O gerente, orgulhoso da transformação digital, perguntou o que havia mudado.
— Nada — respondeu Seu Osvaldo. — Só vim mais cedo para não discutir com a câmera.
No fim do dia, o relógio da recepção foi retirado para manutenção. Estava funcionando perfeitamente.
Seu Osvaldo soube da notícia e achou melhor não comentar. Certas provas, quando se acumulam, acabam ficando inconvenientes.
